Desembarque de DEM e MDB do Centrão dificulta articulação de Bolsonaro na Câmara

Em um movimento que embaralha as forças políticas na Câmara e que desafiará a coordenação política do Palácio do Planalto, o MDB e o DEM decidiram deixar o bloco de partidos comandado pelo deputado Arthur Lira (AL), líder do PP.

Com o desembarque, o maior agrupamento partidário da Câmara perderá 63 parlamentares, encolhendo de 221 para 158 políticos. O movimento ocorre em meio aos esforços da articulação política do Planalto para organizar uma base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que dê maior sustentação ao governo no Congresso.

Com a alteração das forças políticas, o prognóstico de líderes ouvidos pelo Extra é de que o governo terá dificuldade em ganhar votações. Serão analisados no futuro próximo diversos vetos de Bolsonaro, como o de um trecho da nova lei de saneamento que dava tempo para que estatais adequassem seus contratos, e também o da prorrogação da desoneração da folha de pagamentos de empresas.

A Frente Parlamentar da Agropecuária articula a derrubada de um veto do governo à tributação especial de biocombustíveis, e de outros que tratam da renegociação de dívidas agrícolas. Foram vetados prazos maiores para pagar os débitos e outras condições que, segundo o governo, acarretariam perda de receita.

Outros assuntos de interesse do governo que podem dividir a Câmara no futuro próximo são o projeto de regularização fundiária e o que flexibiliza o registro de armas, por exemplo, além da reforma tributária, em que há interesses do Executivo em jogo. Além disso, o Planalto defende a liberação de cassinos no Brasil, proposta ainda não formalizada.

Com a saída do MDB e do DEM, seguem no bloco liderado por Lira PL, PP, PSD, Solidariedade, PTB, Pros e Avante. Como mostrou o GLOBO, a divisão no grupo ocorreu depois de PP, PL, PSD e Republicanos se aproximarem do governo. Partidos como DEM, MDB, PSDB, Podemos e Cidadania estão mais próximos de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, do que do grupo de Arthur Lira.

— Neste momento, foi questão regimental mesmo. Posicionamento de bancada quanto a requerimentos, urgências, destaques, reposicionar a autonomia da bancada do DEM — diz Efraim Filho (PB), líder do DEM.

Já o líder do MDB, Baleia Rossi (SP), afirmou em uma rede social: “O MDB independente foi aprovado na convenção que me elegeu presidente do partido em 2019. Apoiamos o que acreditamos ser bom para o País. A presença do MDB no bloco majoritário da Câmara se devia às cadeiras nas comissões. Manteremos diálogo com todos.”

O grupo ligado a Rodrigo Maia — apoiado também por cerca de metade do PSL — não participou da última rodada de negociações de cargos com o Planalto e continua sendo o pêndulo de votações polêmicas na Câmara. São cerca de 150 deputados, auto-intitulados “centro independente” ou “Novo Centro”.

Segundo um deputado do centrão com bom trânsito nas cúpulas da Câmara e do Senado, o movimento de MDB e DEM pode ser lido politicamente como um “esvaziamento” de Lira, cujo poder de liderança foi colocado em dúvida na análise da Proposta de Emenda à Constituição (PEC ) do Fundeb (fundo para financiamento da educação básica), na semana passada. Lira pediu o adiamento da votação, posição naquele momento defendida pelo governo. Foi criticado por outros líderes do bloco por isso, já que nem todos eram a favor do adiamento.

Na negociação, o governo e Lira acabaram tendo que ceder e apoiar a PEC, sem força para adiar a votação. Foi uma derrota para os governistas, que estimavam que, com o apoio de Lira, teriam cerca de 250 votos na Câmara.

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